Foto: Vitor Zuccolo
Na virada desta noite de segunda-feira (26) para madrugada desta terça-feira (27), Santa Maria volta a encarar um dos capítulos mais profundos de sua história.
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13 após o incêndio da Boate Kiss, a cidade se recolhe para lembrar as 242 vítimas da tragédia que marcou para sempre o município, o Rio Grande do Sul e o país. É um reencontro coletivo com a dor, a ausência e a espera que nunca cessou.
O tempo passou, mas a madrugada da Kiss não ficou no passado. Ela se repete todos os anos no calendário e todos os dias na vida de quem perdeu alguém naquela noite de 27 de janeiro de 2013. Sobreviventes e famílias organizaram, mais uma vez, uma série de atos simbólicos para relembrar a data e os entes queridos que se foram.
O ato teve início na praça Saldanha Marinho, que reuniu cerca de 100 pessoas, com o ato de acolhimento e conversa de como seria conduzida a homenagem, preparada pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) e Kiss: que isso não se repita.
No local, pessoas que têm o incêndio como ponto em comum se encontravam mais uma vez e compartilhavam como estava a vida mais de uma década após o ocorrido. Delvani Rosso,33 anos, natural de Rosário do Sul, mas que mora em Santa Maria desde 2013, é um destes casos.
Na época, Rosso, morava em Manoel Viana e tinha vindo para Santa Maria apenas para a festa. Ele conta que após sobreviver ao incêndio, ficou em Santa Maria para tratamentos e acabou fixando residência na cidade. Desde então, trabalha dando palestras para o Brasil inteiro, como forma de demonstrar que todos os dias devem ser valorizados.
- Eu ganhei uma segunda vida, passei muito tempo me tratando para sobreviver e acabei ficando por aqui. Hoje em dia dou palestras para diversos ambientes de trabalho na intenção de mostrar que a vida precisa ser valorizada - comentou sobre o que ministra nas palestras.
Em 2013, Rosso tinha 20 anos, e de acordo com o mesmo, na época, queria aproveitar a vida e estar em todos os lugares com os amigos. Este sentimento aflorado, que todo jovem tem, se tornou em raiva após o incêndio. Para não deixar ser consumido pela culpa, Rosso conta que precisou de ajuda para seguir em frente.
- Eu precisei de muito tempo para não me culpar mais de tudo. Após o incêndio eu odiava tudo, não gostava de estar em Santa Maria. Com o tempo e com a ajuda da minha família, eu consegui canalizar toda a raiva e transformar em algo bom, consegui voltar a ser quem eu era antes de tudo - relembrou.
Durante toda a homenagem, Rosso estava acompanhado de sua namorada, a advogada Liana Santos, da irmã, a estudante Josiane Rosso e da sobrinha de apenas um ano e dois meses, Cecilia Rosso.

Após cerca de uma hora de concentração na praça, os organizadores distribuíram 242 velas e flores de Lisianto, que representa gratidão e apreço. Os presentes no ato iniciaram a caminhada da Vigília, onde se deslocaram até o local onde funcionava a Boate Kiss, e que está sendo construído o Memorial às vítimas.
Ao som de onde quer que eu vá, da banda brasileira Paralamas do Sucesso, o terceiro ato, chamado de ausência presente, teve início. As flores e velas foram sendo colocadas nas pinturas feitas na rua com as iniciais das vítimas do incêndio.

Familiares e amigos das vítimas não contiveram o choro ao relembrarem das pessoas que 13 anos atrás faziam parte de suas rotinas.
Em um canto, com a mão em um colar e com olhar fixo para as pinturas do chão, estava Marines dos Santos Barcellos, auxiliar de limpeza, 52 anos, mãe de Roger dos Santos, 22 anos, que trabalhava em um supermercado. Por vezes, o jovem trabalhava como segurança, para conseguir um pouco mais de dinheiro para colaborar com as contas de casa.

A mãe do jovem conta que Roger havia trabalhado poucas vezes no local. Ele acabou falecendo durante o incêndio. Para Marines, que durante a juventude do filho, era mãe solo, Roger era o homem da casa.
- Ele era um menino sem defeitos, muito trabalhador. Eu era mãe solo e além do Roger, tinha meu outro filho, mais novo, e o Roger era o homem da casa, me ajudava em todas as decisões. Até hoje sinto falta dele me ajudando em tudo - emocionada, relembrou de seu filho.
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Marines, que morava no centro, conta que soube da notícia do incêndio logo no início, através de um amigo de Roger, que passava pelo local.
- Ele sabia que o meu filho estava trabalhando lá. Ele na mesma hora me ligou perguntando se o Roger estava em casa, e eu respondi que não, que ele estava trabalhando na boate. Ele disse que ia passar para me pegar e levar até o local. Chegamos lá e não deixavam a gente entrar e eu não tinha notícias do meu filho, até que no meio da madrugada ele foi encontrado já sem vida, Ali, parecia que meu mundo tinha acabado - relembrou
Além de ter o filho na memória, Marines leva o filho no peito. Ela carrega no pescoço uma corrente, que na ponta, em formato de coração, está a foto do filho.

- Eu levo ele comigo sempre. Infelizmente não tenho mais ele em vida, mas a memória dele segue viva- finalizou, emocionada com as homenagens.
Ao longo desses anos, Santa Maria aprendeu que o luto não tem prazo. A cada janeiro, a cidade revive a tragédia não por escolha, mas por necessidade. Lembrar tornou-se um ato de resistência. Um gesto de afirmação de que aquelas 242 vidas não serão esquecidas e de que a tragédia não pode ser naturalizada.
Passava das 23h30min quando o quarto ato, nada consta, teve início. No telão instalado na Rua do Andradas, mensagens de som em forma de protesto contra os réus e as instalações da boate foram compartilhadas.

No mesmo instante, cartazes foram colados nos tapumes das instalações das obras do Memorial. Dizeres como “O público não foi alterado”, “O ar acabou em minutos” e “Capacidade máxima não respeitada” foram colados como forma de protesto a tudo que aconteceu na noite mais triste que Santa Maria já viveu.
Por diversos momentos, o silêncio era interrompido pelo som de choro, de alguém que lembrava, com muita dor, da madrugada do dia 27 de janeiro de 2013.
Quando o luto vira luta
Foi dessa travessia dolorosa que surgiram movimentos como a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) e o Coletivo Kiss: que Não Se Repita. Ao longo desses 13 anos, familiares e sobreviventes transformaram sofrimento em mobilização, memória em denúncia e saudade em compromisso coletivo.
O presidente da AVTSM, Flávio Silva, cobra por melhorias na regulamentação e cuidados em espaços fechados. Durante conversa com a reportagem, o presidente da associação relembrou o recente caso do incêndio em uma boate na Suíça. Para ele, lições que deveriam ter sido tiradas no mundo todo, não estão sendo feitas.
- Este caso acendeu o sinal de alerta novamente. As coincidências e semelhanças com o que aconteceu na Kiss são muito grandes. E por incrível que pareça, até as falhas de fiscalização foram parecidas- comparou.
A fala ecoa o sentimento de centenas de famílias que seguem aguardando respostas completas, decisões definitivas e a responsabilização por tudo o que aconteceu. A espera virou rotina, mas nunca foi aceita como normal. A tragédia da Kiss deixou claro que o tempo não apaga a dor. Ele apenas muda a forma de conviver com ela. O que permanece inegociável é a exigência por memória, justiça e mudanças reais.

A tragédia deixou de ser apenas um marco do passado e passou a ser um alerta permanente. Projetos de prevenção, debates técnicos, atos públicos e iniciativas educativas nasceram da necessidade de impedir que outras famílias vivam o mesmo.
- Depois de todo esse tempo de luto, a gente recebeu uma apunhalada do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) quando decidiram reduzir pela metade as penas dos réus, isso foi um golpe muito forte, pois os réus só respondiam por um homicídio. Mas nós acreditamos que vamos reverter todas essas decisões contraditórias- finalizou.
Ao longo desses 13 anos, a cidade construiu seus próprios rituais de memória. Caminhadas silenciosas, vigílias, leitura dos nomes das vítimas, velas acesas, flores, abraços. Nada disso se repete por hábito. Cada gesto reafirma que aquelas vidas seguem presentes.
O final das homenagens da noite desta segunda se deu à meia noite, com o quarto ato, do minuto do barulho, em homenagem às vidas perdidas no incêndio.
Programação de homenagens segue
Terça-feira (27)
• 18h10min – Mesa 1: Segurança contra incêndios: da norma à vida
• 19hmin – Mesa 2: Quando a dor vira linguagem
• 19h50min – Mesa 3: Lançamento do Alerta Kiss – informação que salva
• 20h30min – Encerramento: ato final de memória e compromisso coletivo
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